Inflamação silenciosa: os sinais que seu corpo dá antes de adoecer

Nem toda inflamação avisa que está lá. Você conhece aquela que incha, dói e some em poucos dias mas existe outro tipo, que fica anos passando despercebida enquanto contribui, nos bastidores, para doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas. É a chamada inflamação crônica de baixo grau, ou inflamação silenciosa.

O que é a inflamação silenciosa (ou inflamação crônica de baixo grau)?

A inflamação aguda protege o corpo, ela aparece, faz o trabalho dela e vai embora. Já a inflamação crônica de baixo grau se instala e fica, sustentada por hábitos do dia a dia, sem gerar nenhum sintoma óbvio. Uma revisão publicada na Nature Medicine reuniu evidências de que esse tipo de inflamação está entre os principais fatores por trás de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, câncer e distúrbios neurodegenerativos1.

Por que ela também é chamada de “inflammaging”?

Alguns pesquisadores deram um nome a esse processo: “inflammaging”, uma junção de inflamação com envelhecimento acelerado dos tecidos. O termo existe porque essa inflamação silenciosa tende a aumentar com a idade, mas hábitos de vida têm um peso enorme em quanto ela avança.

Sinais que o corpo pode estar dando antes de você adoecer

Cansaço que não passa (sim, esse mesmo), digestão alterada, dores nas articulações que vêm e vão, pele sem viço, dificuldade de concentração, nada disso grita “inflamação” sozinho, mas juntos, pode ser exatamente isso. Como não dói de verdade, a maioria só percebe o problema quando ele já virou algo maior.

Os principais gatilhos do estilo de vida moderno

Sedentarismo, dieta cheia de ultraprocessados e açúcar, noites mal dormidas, estresse constante e excesso de gordura corporal: todos esses fatores ajudam a manter esse fogo baixo aceso1. E o intestino também entra na conta — como mostramos no intestino como segundo cérebro, um desequilíbrio na microbiota já foi associado ao aumento de marcadores inflamatórios no corpo.

Como saber se você está em risco?

Não dá para “sentir” a inflamação silenciosa, mas alguns exames de rotina ajudam a estimar o risco: proteína C-reativa, glicemia de jejum, perfil lipídico. Circunferência abdominal maior que o recomendado, pressão alta e histórico de doenças cardiometabólicas na família também acendem um sinal amarelo que vale conversar com um profissional de saúde.

Estratégias baseadas em evidências para reduzir a inflamação

A boa notícia é que dá para agir. Priorizar frutas, vegetais, peixes ricos em ômega-3 e especiarias como a cúrcuma é uma das estratégias mais estudadas. A curcumina, composto ativo da cúrcuma, tem ação antioxidante e anti-inflamatória bem documentada, incluindo redução de marcadores inflamatórios sistêmicos2  se quiser se aprofundar, temos um artigo inteiro sobre cúrcuma: benefícios e contraindicações. Dormir bem, se movimentar com regularidade e cuidar do estresse completam o time, já que essas três variáveis estão diretamente ligadas à forma como o corpo regula sua resposta inflamatória1. Conheça também as opções de ômega-3 e cúrcuma disponíveis, sempre com orientação profissional.

Conclusão

A inflamação silenciosa é, no fundo, um espelho dos hábitos acumulados ao longo dos anos. E a parte boa é que a maioria desses hábitos pode ser ajustada aos poucos. Buscar acompanhamento nutricional para entender seus riscos individuais é o caminho mais seguro para agir antes que os sinais silenciosos virem doença de verdade.

Referências Científicas

Furman D, Campisi J, Verdin E, Carrera-Bastos P, Targ S, Franceschi C, Ferrucci L, Gilroy DW, Fasano A, Miller GW, Miller AH, Mantovani A, Weyand CM, Barzilai N, Goronzy JJ, Rando TA, Effros RB, Lucia A, Kleinstreuer N, Slavich GM. Chronic inflammation in the etiology of disease across the life span. Nature Medicine. 2019;25(12):1822-1832.

Hewlings SJ, Kalman DS. Curcumin: A Review of Its Effects on Human Health. Foods. 2017;6(10):92.

Ellen Kwamme – CRN 24103612

Nutricionista – Pesquisadora e Responsável técnica Way Suplementos

O SOP mudou de nome? Saiba o que é a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP)

Em maio de 2026, saiu uma notícia que pegou muita gente de surpresa: a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) ganhou um novo nome. Um consenso científico global, publicado na revista The Lancet, propôs chamá-la de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina, ou SOMP1. E não, não é só uma questão de rótulo, a mudança carrega décadas de discussão sobre uma condição que vai muito além dos ovários.

Por que a SOP mudou de nome?

Pensa bem: o nome “ovários policísticos” nunca contou a história toda. Nem toda mulher com o diagnóstico de SOP tem cistos nos ovários, e o nome não menciona nada sobre os aspectos metabólicos e hormonais que, para muitas pacientes, são os sintomas mais incômodos no dia a dia. O consenso reuniu mais de 56 organizações acadêmicas e clínicas e ouviu mais de 14 mil pessoas na busca por um nome que representasse melhor a síndrome , e reduzisse o estigma que ainda cerca o diagnóstico1.

As três dimensões da SOMP

O novo nome reconhece três frentes da síndrome: alterações hormonais múltiplas (insulina e andrógenos elevados), características metabólicas (resistência à insulina, sobrepeso, maior risco de diabetes tipo 2) e disfunção ovariana (ciclos irregulares, dificuldade para engravidar)1. Entender essas três frentes ajuda a explicar por que o tratamento da SOMP não se resume a “regular o ciclo”.

Resistência à insulina: o elo central da SOMP

A resistência à insulina está presente na maioria dos casos de SOP/SOMP e puxa o resto do quadro junto: ganho de peso, cansaço (sim, aquele mesmo que já vimos por aqui) e irregularidades hormonais. As diretrizes internacionais de 2023 são claras: cuidar do peso, da alimentação e da atividade física é parte central do tratamento, ao lado do acompanhamento médico2.

Suplementação para SOP/SOMP: o que a ciência realmente diz?

O mio-inositol é, hoje, um dos suplementos mais estudados para SOP/SOMP, com alguns indícios de benefício em parâmetros metabólicos.

Mio-inositol ajuda? O que dizem as evidências

Vale ser transparente aqui: a revisão que embasou as diretrizes de 2023 concluiu que as evidências sobre o mio-inositol ainda são limitadas e pouco consistentes,  o que significa que a decisão de suplementar deve ser conversada com um profissional, caso a caso3. Vale conhecer as opções de magnésio com inositol, vitamina D e ômega-3, sempre com indicação individualizada.

Por que o diagnóstico de SOP/SOMP costuma demorar tanto?

Não é incomum levar anos até chegar ao diagnóstico correto. Os sintomas variam muito de pessoa para pessoa, e sinais como acne, queda de cabelo, cansaço e ciclo irregular acabam sendo tratados separadamente, como se não tivessem nada a ver uns com os outros. A expectativa é que o novo nome ajude médicos e pacientes a enxergarem o quadro completo — e cheguem a um diagnóstico, e a um plano de cuidado, mais cedo.

Conclusão

Renomear uma condição que afeta cerca de 170 milhões de mulheres no mundo é também uma forma de melhorar o diagnóstico e tirar um peso simbólico de cima de quem convive com ela. Se você tem SOP/SOMP, ou desconfia que tem, o primeiro passo continua sendo o mesmo: procurar acompanhamento médico e nutricional qualificado. Vale complementar a leitura com o nosso artigo sobre saúde hormonal feminina. Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica.

Referências Científicas

Teede HJ, Khomami MB, Moran LJ, et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet. 2026.

Teede HJ, Tay CT, Laven JSE, et al. Recommendations from the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2023;108(10):2447-2469.

Fitz V, Graca S, Mahalingaiah S, et al. Inositol for Polycystic Ovary Syndrome: A Systematic Review and Meta-analysis to Inform the 2023 Update of the International Evidence-based PCOS Guidelines. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2024;109(6):1630-1655.

Ellen Kwamme – CRN 24103612

Nutricionista – Pesquisadora e Responsável técnica Way Suplementos

Você vive cansado? O problema pode não ser a falta de sono.

Dormiu as suas oito horas, o despertador nem tocou ainda e você já acorda se sentindo exausto? Se isso acontece com frequência demais, já não é coincidência, talvez seja hora de olhar além do sono. O cansaço constante quase sempre tem mais de uma causa: alimentação, estresse acumulado, deficiências nutricionais específicas e alguns hábitos que, sozinhos, parecem inofensivos mas, juntos, drenam sua energia todos os dias.

O sono não é a única variável

Cortisol lá em cima, por causa do estresse crônico, atrapalha a arquitetura do sono e impede aquele descanso de verdade reparador, mesmo quando você fica na cama o tempo “certo”. E tem um detalhe chato: sono ruim e estresse se alimentam um do outro. Dormir mal aumenta o cortisol no dia seguinte, e o cortisol alto dificulta ainda mais uma noite de sono profundo1. Ou seja: só “dormir mais cedo” nem sempre resolve o cansaço constante.

Nutrientes que faltam  e quase ninguém percebe

Ferro, magnésio, vitamina D e vitamina B12 entram direto na produção de energia das suas células. Quando falta algum deles, o corpo sente  e sente na forma de cansaço que não passa, dificuldade para concentrar e aquela sensação de estar sempre no limite, que muita gente confunde com “estresse do dia a dia”2. Unhas fracas, tontura ou falta de ar ao subir uma escada? Vale a pena investigar se sua vitamina B12 está baixa antes de continuar tentando dormir mais como única solução.

Magnésio, estresse e a sensação de estar sempre no limite

O magnésio tem papel central na resposta do corpo ao estresse. E aí mora o problema: pouco magnésio deixa você mais reativo a qualquer estresse, e o próprio estresse crônico faz o corpo eliminar mais magnésio pela urina, um ciclo vicioso que ajuda a explicar por que tanta gente vive “no limite”3. Cuidar da ingestão de magnésio e de vitamina D é parte da estratégia, sempre com orientação nutricional.

Hábitos que também pesam na conta do sono

Picos e quedas de glicemia ao longo do dia, comuns em dietas cheias de açúcar e ultraprocessados, dão exatamente aquela sensação de energia instável que tanta gente relata: sobe rápido, cai rápido, como já explicamos no artigo sobre picos de glicemia. Sedentarismo, tela do celular até tarde da noite e um processo silencioso de inflamação também jogam contra a sua energia, tema que detalhamos em inflamação silenciosa4. E a lista não para por aí: como mostramos em o intestino como segundo cérebro, um intestino desequilibrado também pode deixar você mais cansado e mais para baixo.

Quando buscar ajuda profissional para melhorar o sono?

Se o cansaço persiste por semanas, mesmo com boas noites de sono e alimentação equilibrada, vale investigar a fundo. Um nutricionista pode pedir exames para checar ferro, vitamina D, B12 e magnésio, e ajustar sua alimentação a partir daí. Já um médico é essencial para descartar outras causas, como alterações hormonais e problemas de tireoide, que também deixam qualquer pessoa exausta. Suplementar por conta própria, sem saber o que realmente está em falta, pode mascarar o problema em vez de resolvê-lo.

Conclusão

O cansaço constante quase nunca tem uma causa só. Antes de tentar “só dormir mais”, vale olhar para o conjunto: sono, estresse, alimentação e possíveis deficiências nutricionais, sempre com quem entende do assunto. Ajustes pequenos, feitos com constância, tendem a valer muito mais do que soluções isoladas.

Referências Científicas

Nollet M, Wisden W, Franks NP. Sleep deprivation and stress: a reciprocal relationship. Interface Focus. 2020;10(3):20190092.

Tardy A-L, Pouteau E, Marquez D, Yilmaz C, Scholey A. Vitamins and Minerals for Energy, Fatigue and Cognition: A Narrative Review of the Biochemical and Clinical Evidence. Nutrients. 2020;12(1):228.

Pickering G, Mazur A, Trousselard M, Bienkowski P, Yaltsewa N, Amessou M, et al. Magnesium Status and Stress: The Vicious Circle Concept Revisited. Nutrients. 2020;12(12):3672.

Furman D, Campisi J, Verdin E, Carrera-Bastos P, Targ S, Franceschi C, Ferrucci L, Gilroy DW, Fasano A, Miller GW, Miller AH, Mantovani A, Weyand CM, Barzilai N, Goronzy JJ, Rando TA, Effros RB, Lucia A, Kleinstreuer N, Slavich GM. Chronic inflammation in the etiology of disease across the life span. Nature Medicine. 2019;25(12):1822-1832.

Ellen Kwamme – CRN 24103612

Nutricionista – Pesquisadora e Responsável técnica Way Suplementos

Intestino: o segundo cérebro que pode estar controlando seu humor

Já reparou como um dia ruim costuma vir acompanhado daquele “friozinho na barriga”? Essa expressão tem mais ciência por trás do que parece. O intestino conversa o tempo todo com o cérebro através do eixo intestino-cérebro, e a microbiota intestinal os trilhões de bactérias que moram aí dentro ajudam a regular seu humor, sua ansiedade e até a qualidade do seu sono.

O que é o eixo intestino-cérebro?

O intestino tem milhões de neurônios próprios e troca informação com o cérebro por vias hormonais, imunológicas e pelo nervo vago  uma via de mão dupla, aliás: assim como o intestino influencia o cérebro, dias de ansiedade costumam vir acompanhados daquele desconforto digestivo.

Por que o intestino é chamado de “segundo cérebro”?

Não é à toa que pesquisadores usam esse apelido: mudanças na composição da microbiota já foram associadas a quadros de ansiedade, depressão e até dificuldades de memória e concentração1. É um sistema nervoso quase independente, funcionando bem debaixo do seu umbigo.

A serotonina que nasce no intestino, não no cérebro

Um dado que costuma surpreender: cerca de 90% da serotonina do corpo, o neurotransmissor ligado à sensação de bem-estar , é produzida no intestino. As bactérias que vivem aí estimulam células especializadas a produzir esse neurotransmissor a partir de compostos gerados pela fermentação de fibras alimentares2. Ou seja: uma alimentação pobre em fibras pode mexer com o seu humor de um jeito que quase ninguém espera.

Sinais de que o intestino pode estar afetando seu humor

Inchaço, intestino preso ou irregular, ansiedade sem motivo aparente, sono ruim sem explicação clara , juntos, esses sinais podem ser uma pista de que vale a pena olhar para a sua microbiota. Isso não é convite para autodiagnóstico: é motivo para conversar com um nutricionista, que vai avaliar sua alimentação como um todo antes de sugerir qualquer suplemento.

Fibras, prebióticos e probióticos: o combustível da sua microbiota

Fibras funcionam como prebióticos, o “alimento” das bactérias boas do intestino. Já os probióticos são microrganismos vivos que, em quantidade adequada, ajudam a manter esse equilíbrio.

Vale a pena tomar probiótico para ansiedade?

Uma revisão de estudos clínicos randomizados encontrou associação entre a suplementação com probióticos e a redução de sintomas de ansiedade e depressão em algumas pessoas, embora os efeitos variem conforme a cepa usada e o perfil de cada uma3. Vale conhecer as opções de prebióticos e probióticos disponíveis, sempre com orientação nutricional, com a dose certa fazem toda a diferença.

Hábitos que fortalecem a saúde intestinal no dia a dia

Comer mais vegetais, frutas, leguminosas e grãos integrais, beber água o suficiente, se movimentar com regularidade e cuidar do estresse são a base para uma microbiota equilibrada. O intestino também sente as oscilações de glicemia  tema que já exploramos em picos de glicemia  e processos inflamatórios, discutidos em inflamação silenciosa. Trocar ultraprocessados por comida de verdade é, talvez, o hábito de maior impacto para a diversidade da sua microbiota ao longo do tempo.

Conclusão

Cuidar do intestino é cuidar de muito mais do que digestão: é cuidar do humor, da disposição (tema do nosso artigo sobre cansaço constante) e da saúde mental de um jeito geral. Antes de sair comprando probiótico por conta própria, o melhor caminho é buscar um nutricionista, que vai indicar a cepa e a dose certas para o seu caso.

Referências Científicas

Appleton J. The Gut-Brain Axis: Influence of Microbiota on Mood and Mental Health. Integrative Medicine (Encinitas). 2018;17(4):28-32.

Reigstad CS, Salmonson CE, Rainey JF 3rd, Szurszewski JH, Linden DR, Sonnenburg JL, Farrugia G, Kashyap PC. Gut microbes promote colonic serotonin production through an effect of short-chain fatty acids on enterochromaffin cells. FASEB J. 2015;29(4):1395-1403.

Nikolova VL, Zaidi SY, Young AH, Cleare AJ, Stone JM. Gut feeling: randomized controlled trials of probiotics for the treatment of clinical depression. Ther Adv Psychopharmacol. 2019;9:2045125319859963.

Ellen Kwamme – CRN 24103612

Nutricionista – Pesquisadora e Responsável técnica Way Suplementos